ENTREVISTA COM ADRIANO BEDORE por Cíntia Rabaçal – para as eleições 2012

Impressões do entrevistador

Ao mesmo tempo que parece defensor voraz de suas ideias, Adriano também se mostra extremamente tolerante com as opiniões opostas, num tom conciliatório e envolvente. Enfim, Adriano Bedore é um debatedor nato, pouco ambicioso, polêmico, tolerante e um entusiasta das ideias que iluminem o futuro de sua terra natal.

Adriano Bedore por que a política?
Adriano: O mundo passa por grandes transformações e vivemos mudanças profundas em todas as áreas, inclusive nas formas institucionais de poder, contudo, a política ainda é o mais eficiente instrumento de transformação social que temos. Aquele que pensa em mudanças sociais, que discute melhorias para seu bairro, cidade, Estado, País, acaba inevitavelmente na política. Sem contar que vivi muito próximo no meio político pois meu pai, Odair Bedore, foi durante 22 anos consecutivos vereador em Atibaia, de 1983 a 2004, e com ele aprendi a gostar de política e entender sua importância para a vida das pessoas. Entendo que na minha geração e nas mais novas ainda há uma grande resistência com relação à política e especialmente aos políticos, portanto vencer este preconceito é a primeira batalha para quem pretende se dedicar à vida pública.
Por que o PMDB?
Meu pai disputou seis eleições para vereador e uma para prefeito pelo PMDB, e, como o acompanhei desde criança, minha identidade partidária na cidade foi com o PMDB. Contudo, na primeira eleição para presidente em 1989 me identifiquei muito com a campanha de Mário Covas, pelo PSDB, por quem tive grande admiração política. Passados as eleições daquele ano, com a ida de grandes nomes do PMDB para o recém-criado PSDB, convenci meu pai (que estava no seu segundo mandado de vereador) a deixar o PMDB e ser um dos fundares do PSDB local. Assim minha primeira filiação partidária foi no PSDB em 1990, que reunia grandes nomes da política, paulista como Franco Montoro, Mário Covas e tantos outros. Contudo, o PSDB em Atibaia não se identificava com o recém criado partido paulista e em 1992 acompanhei meu pai em sua volta ao PMDB e, desde então, ou seja, há vinte anos, o PMDB tem sido meu partido político. Fui presidente da executiva municipal entre 1999 a 2001 e liderei o partido nas eleições de 2000. [em 2016 Adriano Bedore se filiou na Rede Sustentabilidade e disputou as eleições daquele ano pelo partido, obtendo 712 votos e ficando novamente suplente. Em fevereiro de 2018 Adriano se filiou ao PDT, seu atual partido].
Qual sua relação com Atibaia?
Tenho um imenso orgulho de ter nascido em Atibaia na década de setenta. Minha família paterna chegou à cidade em 1964, quando meu avô, Oscar Bedore, assumiu a direção de uma igreja evangélica como pastor presidente. Em Atibaia meu pai conheceu minha mãe, nascida na cidade e oriunda de famílias antigas e tradicionais, nascendo dessa união eu e meus 5 irmãos e eu, todos naturais e residentes na cidade. Portanto, sou um atibaiano apaixonado por minha terra e, pelo lado materno, tenho raízes que remontam à fundação da cidade.
Como você enxerga a cidade?
Bem, eu tenho uma enorme paixão por Atibaia. Desde quando fiz meus estudos primários e secundários, hoje, ensino fundamental e médio, nas décadas de oitenta e noventa, tenho observado um enorme crescimento e transformação. Atibaia mudou muito desde minha época de ginásio, no José Alvim. Temos que discutir muito seu presente e especialmente seu futuro. A proximidade com grandes metrópoles como São Paulo, Campinas e São José dos Campos é uma grande vantagem e também nosso grande problema. Temos que encontrar, sem demora, uma identidade e as principais vocações da cidade. Acredito muito no potencial turístico da cidade em suas várias vertentes, como exemplo, o turismo de belezas naturais, o religioso, o histórico, etc,. Considero que os condomínios de alto padrão vieram para ficar e é preciso encontrar um ponto de equilíbrio nesta relação, de certo modo, distante de parte dos nossos habitantes com a cidade. Encontrar e investir maciçamente na principal vocação da cidade é sem dúvida o maior desafio desta segunda década do século XXI, bem como levar o poder público mais próximo dos munícipes, investindo muito mais na parte oeste da cidade, ou seja, os bairros a esquerda da rodovia Fernão Dias.
Na sua opinião quais são os grandes problemas da cidade?
Atibaia é uma cidade brasileira, e, como tal o maior problema de Atibaia também o maior problema do Brasil: a imensa desigualdade social. Somos uma cidade de porte médio, visto que, segundo o último censo, temos cerca de 130 mil habitantes, mas temos problemas sociais das grandes cidades: como déficit de habitação e muitas moradias sem nenhuma infraestrutura. Diminuir a desigualdade social, para mim, deve ser o primeiro e principal desafio de qualquer governante brasileiro. Já avançamos muito nos últimos anos, porém parte deste avanço se deve ao avanço sentido em todo Brasil, fruto da estabilidade econômica, resultante, entre outras coisas, do fim da inflação, mas tenho absoluta certeza de que é possível fazer mais. Temos um orçamento próximo dos 350 milhões ano e penso ser possível avançar ainda mais, e nos dispomos discutir a e a colaborar com esse avanço. Um dado interessante é que o Brasil foi o segundo País que mais cresceu no século XX, perdendo apenas para o Japão, mas tal crescimento não foi capaz de vencer a grande desigualdade social que também atinge nossa cidade.
Qual o setor que merece maior investimento?
Sem dúvida o saneamento básico e a infraestrutura merecem atenção especial. Atibaia tem uma educação que avançou bastante e a saúde, o mais sério problema, da maioria das cidades brasileiras, também teve considerável avanço. É claro que ainda há muito que se fazer nas áreas de educação e saúde, especialmente, grande investimento na melhor qualificação da mão de obra, através de cursos técnicos e na saúde preventiva e descentralizada, mas acredito que os maiores investimentos devem se concentrar no saneamento básico, ainda temos cerca de 40% das residências sem serviços básicos de água e de esgoto e mais cerca de 600 km de estradas sem asfalto. Temos muito que fazer nestas áreas. Outro setor que acredito que deva merecer atenção especial é o do turismo. Como já disse acredito muito na indústria do turismo e no potencial da cidade nesta área.
Como você vê o atual sistema político do Brasil?
Entre as reformas que nosso país precisa implementar com urgência, considero a reforma política uma das mais importantes reformas. O sistema político eleitoral está ultrapassado e o voto distrital misto pode ser uma grande experiência. A fidelidade partidária verdadeira deve por fim a troca-troca de partidos, valorizando-os. Outro grande problema que precisamos resolver é a enorme centralização do poder. Sou municipalista convicto e acredito que a descentralização ajudará o desenvolvimento das cidades. Não consigo conceber que muita arrecadação feita no município tenha que sair dele em favor do Estado e da União para depois com muito trabalho tentar repasses de verbas. O Brasil só se desenvolverá mais e diminuirá a grande desigualdade social se encurtar as distâncias entre a arrecadação e seu destino final, ou seja, é preciso fortalecer os municípios.
Como você avalia a corrupção no Brasil?
A falta de espírito público, a ambição desmedida e a centralização dos recursos são as maiores causas deste mal. Nenhum país está livre da corrupção porque a ganância e a falta de caráter são vícios do ser humano. Contudo, acredito na democracia plena como sistema mais eficaz de combate à corrupção. Só com amadurecimento político da sociedade é que vamos com o tempo expurgando os políticos corruptos do poder. Reformas políticas e eleitorais também contribuiriam neste sentido na medida em que aperfeiçoarão, por exemplo, os métodos de arrecadação de campanha.
Como nasceu seu interesse pela história e pela genealogia?
Sempre gostei muito de história, acho que a matéria que mais curtia nos tempos de ginásio e colegial. Lembro que, a partir de 1994, comecei a interessar-me pela origem da minha família, tanto pelo lado paterno, italiana, quanto do lado materno, italiana e brasileira, ou melhor atibaiana. Comecei a estudar e a pesquisar tanto a história de Atibaia quanto a história da minha família, através da genealogia. Em 1997 fui um dos pesquisadores do livro, “Família Atibaiana”, de José Luiz Teixeira e em 2000 fui um dos coordenadores de um livro que retratou várias famílias atbaianas, “Famílias Ilustres e Tradicionais de Atibaia”, e neste ano estou publicando meu livro de genealogia, “Raízes – notas genealógicas”, e coordenando um livro sobre a importância da imigração italiana em Atibaia.
Como você vê a preservação da história de Atibaia?
Acredito que há muito que se fazer pela preservação da história e do patrimônio cultural, artístico e arquitetônico de Atibaia. Entre muitas ações importantes, defendo a criação imediata de um arquivo municipal ou um museu da memória, reunindo num mesmo espaço todo arquivo histórico da cidade, facilitando a preservação e as pesquisas nesta área.
Quais são as principais propostas da sua campanha?
Proponho primeiramente um mandato participativo. Quando decidi participar deste processo como postulante de uma cadeira na câmara, o fiz por acreditar num mandato de vereador participativo e real e por me considerar preparado para este desafio. O tempo de eleger vereador e prefeito e haver entre nós eleitores e eles eleitos, um abismo de comunicação e participação nas decisões de ambos os poderes está definitivamente acabando. Quero ser parte deste processo, na medida em que não enxergo outra melhor solução, do que a participação efetiva da população nas discussões dos projetos políticos de nossa cidade. A partir de agora, quero discutir, na rede, mas especialmente pessoalmente, projetos para termos uma Atibaia mais sustentável, que invista mais no turismo como fonte de riquezas; que invista mais nas suas crianças e jovens, através de projetos sociais, esportivos e culturais e especialmente educacionais, transformando vidas através da oportunidade e do conhecimento. Acredito que não pode haver progresso e evolução sem que preservemos e conheçamos nossa história, nossas manifestações culturais e folclóricas, e como somos riquíssimos nesta área. Acredito na eficiência da preservação ambiental que passe pelo incentivo fiscal e monetário de quem se disponha a lutar e a defender o meio ambiente, é justo acima de tudo. Acredito que além da aprovação de novos loteamentos, sempre com o cumprimento rigoroso da lei, é preciso regularizar e levar melhorias aos que já existem, contando, com isto com a ajuda da iniciativa privada que quer investir na nossa cidade. Para cada rua nova a ser aprovada, que seja investido em duas já existentes e sem infraestrutura. Creio que devemos abrandar a lei municipal que trata da regularização fundiária e de imóveis. Devemos criar condições de regularização para os imóveis e loteamentos já existentes há anos e aumentarmos a fiscalização evitado assim a implantação de novos loteamentos clandestinos. Acredito ser possível políticas públicas que visem a valorização da população idosa que só tende a crescer sendo mais que justo, por tudo que já fizeram, criando a; Cidade da Melhor Idade, que seria uma grande área com espaço para lazer, esportes, qualificação, tudo voltado à terceira idade. Acredito que é possível crescer sem ter que perder a qualidade de vida. Acredito em projetos como o a cittaslow de cidades européias, que valorizam a qualidade de vida acima de tudo. Acredito que é possível fazer política com o mesmo amor e decência que tratamos nossos amigos e familiares, especialmente a municipal, pois vivemos na nossa cidade, não no Estado, nem no País. Acredito que a descentralização do poder já passou da hora e que precisamos ter, no mínimo, 4 subprefeituras, a fim de levar o poder público para perto dos moradores.
Você é morador do bairro Jardim Brasil que recentemente sofreu uma grande enchente, o que tem a falar sobre isto?
Verdade. Moro com minha família desde que nasci na mesma rua, exceto o período de faculdade. O bairro Jardim Brasil fica entre o supermercado Extra e rua Rui Barbosa, que dá acesso ao Externato São José. No dia 11 de janeiro de 2011, próximo às onze horas da noite, depois de intensa chuva nosso bairro foi completamente inundado e nós e todos nossos vizinhos, perdemos tudo. Após o episódio procurei com muita responsabilidade e seriedade encontrar soluções para o grave problema e em janeiro deste ano protocolei em vários órgãos competentes um estudo do problema, e, especialmente, várias propostas de soluções. Espero que as propostas sejam executadas e as tenho cobrado com bastante ênfase desde então e espero poder cobrar com mais eficiência, através de um mandato popular.
Se considera religioso:
Sou, com muito orgulho, neto do pastor evangélico, Oscar Bedore, falecido em 2004. Minha formação é cristã evangélica. Contudo como estudioso da sociologia e das religiões sou um ferrenho defensor da total liberdade de culto. Para mim, a religião cumpre seu papel, seja ela qual for, quando corrige e muda a vida do homem para o bem, independentemente de seus preceitos e dogmas. Se uma religião tirar um homem da sarjeta, da criminalidade, da exclusão social e familiar, reconduzindo-o a uma vida digna e do bem, não importa qual seja ela, prestou seu papel e tem que ser respeitada. Embora não seja praticante de nenhuma religião sou defensor intransigente do direito de culto a todas as religiões.
Como você definiria seu temperamento?
Difícil de falar de si próprio. Sou um cara conceitualmente tímido, mas por vezes me vejo negando totalmente esse conceito (risos). Sou muito sociável, mas também curto momentos de isolamento e de introspecção. Adoro buscar o consenso numa discussão, mas também não dispenso um bom debate polêmico. Adoro rir, me descontrair, especialmente com amigos, mas sempre me vejo sério envolto às ‘grandes’ discussões e em busca de soluções para problemas coletivos. Tento ser gentil e educado, mas também sei ser sarcástico e grosseiro com os iguais. Já fui menos tolerante, mas hoje acredito que a tolerância é uma das minhas grandes virtudes. Já tive mais pressa e hoje sou bem mais paciente, ser perder a vontade de mudar as coisas que acredito precisam mudar. Enfim, adoro viver com muita intensidade cada minuto, cada dia.
Qual seu prato predileto?
Adoro massas, mas um bom churrasco e uma boa comida mineira, são sempre bem-vindas.
Qual ou quais são seus passatempos, sua distração?
Amo viajar, conhecer novos lugares, costumes, culturas, pessoas. O contato com as pessoas talvez seja meu maior prazer. Também gosto muito de ler, de pesquisar na internet. Amo estar na Villa D’ Este, uma pequena propriedade rural que tenho próxima à pedrinha, onde recarrego minhas baterias.
Você gostaria deixar alguma mensagem?
O destino dos municípios para os próximos 4 anos começa a ser pensado e decidido a partir de agora. É hora de reflexão profunda e discussão séria em torno das ideias e propostas daqueles que se dispõem a governar ou compor os legislativos municipais. Nem sempre fazer ou discutir política é prazeroso, mas é muito necessário, pois ela ainda é o mais importante instrumento de transformação social contemporâneo. A política séria, com interesse público acima de tudo, vem conquistando cada vez mais espaço entre as novas gerações de políticos e, sobretudo entre os eleitores. Precisamos ouvir, discutir e comparar as propostas, resumindo precisamos participar do processo político, contribuindo não só com o solitário momento do voto, mas com a construção dia a dia, projeto a projeto, luta por luta do que acreditamos ser melhor para nossa comunidade. É isto que proponho: discutir os problemas e as soluções de nossa cidade, não só neste período, mas durante todo o mandato popular de nossos governantes.